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Impactos da plataformização da escola na subjetividade da juventude: os limites do “cérebro eletrônico”

Data
14 de setembro de 2026

No âmbito da Disciplina História e Memória do PPGCS/Unesp-Marília, ofertada por docentes do programa que fazem parte do LIEG, a mestranda Gabriela Berbel dos Santos, insere sua contribuição aproximando os debates da disciplina com seu tema de pesquisa.

A presente pesquisa de Mestrado, em andamento pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais na Faculdade de Filosofia e Ciências/FFC Unesp-Marília, pretende investigar quais são os impactos da plataformização da escola na subjetividade da juventude com enfoque no caso da rede estadual paulista. Trata-se de uma pesquisa qualitativa bibliográfica, documental e exploratória. Sua parte documental debruçou-se nos documentos oficiais do governo para traçar os objetivos das políticas educacionais de plataformização como ofícios, pareceres, notas técnicas e resoluções, sobretudo a partir do ano de 2023. Sua parte exploratória dedica-se a realização de observação de campo e entrevistas com estudantes do Ensino Médio da rede estadual paulista em escolas públicas do município de Marília. O objetivo é identificar os prejuízos dessas políticas educacionais na formação da juventude, traçando o que tem sido realizado como enfrentamento e resistência para a construção de uma educação mais emancipadora e humanizadora.

A escola caracteriza-se como instituição cuja função social principal é a formação da classe trabalhadora por meio da socialização dos conhecimentos historicamente produzidos, com objetivos limitados e determinados pelo avanço das forças produtivas para manter as dinâmicas de dominação (Mendonça, 2011). No entanto, a escola também é a instituição capaz de organizar e compartilhar o conhecimento que não é imediatamente acessível no cotidiano dos(as) trabalhadores(as), como também colocar os sujeitos em relação ao diferente, valorizando a pluralidade histórica e cultural, e, por essa razão, cabe aos(as) professores(as) a luta de articular a escola aos interesses dos dominados contra a seletividade, a discriminação e o rebaixamento do ensino das camadas populares (Mendonça, 2011; Saviani, 2008).

Contudo, a vivência do tempo e espaço escolar tem sofrido alterações significativas desde 2023 e 2024, período que foi possível observar a intensificação da utilização de plataformas digitais de aprendizagem e gestão – é este contexto que chamamos de plataformização da escola pública. Na rede estadual paulista, diversos aparelhos e dispositivos invadem a sala de aula a serviço do acesso obrigatório às plataformas: painéis de dados com indicadores de desempenho discente e docente para controle imediato de resultados, plataformas com atividades pedagógicas de diferentes áreas do conhecimento, material didáticodigital (slides), recurso de diário de classe para contabilizar a frequência dos estudantes, videoaulas com conteúdos de formação docente atrelados ao material digital, entre outras. Plataformas diversas para o acesso obrigatório de alunos, professores e administradores. As atividades escolares passaram a ser organizadas pela dinâmica e ideologia neoliberal do resultado (Maldonado, Jacomini, 2025).

A pandemia da Covid-19 foi propulsora da intensificação da implementação de tecnologias digitais na escola pública, especialmente no estado de São Paulo. No ano de 2020, o ensino a distância acentuou-se em todo o mundo: “Segundo dados da Unesco, entre março e outubro de 2020, mais de 1,3 bilhão de alunos em todo o mundo tiveram de experimentar o ensino a distância, devido à pandemia” (Gjergji; Denunzio, 2023, p. 306). Com a justificativa de adotar estas ferramentas como medida emergencial para conter a paralisação de algumas atividades diárias, foi possível observar neste período, um plano de décadas das Edtechs se concretizando (Gjergji; Denunzio, 2023). Desse modo, com o retorno das atividades presenciais e vacinação da população, as tecnologias digitais não foram abandonadas ou reduzidas, mas passaram a compor significativamente o cotidiano escolar.

No ano de 2020, o estado de São Paulo cria a sua plataforma de transmissão de aulas remotas, chamada de “Centro de Mídias da Educação de São Paulo” (CMSP), utilizada até os dias de hoje como repositório dos materiais digitais (slides) e canais de transmissão de lives (Silva; Zan, 2025; Maldonado; Jacomini, 2025). Os dois anos seguintes foram cruciais para a implementação pioneira do Novo Ensino Médio de acordo com a Reforma instituída pela Lei nº 13.415 de 2017 e com a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) de 2018 (Jacomini; et al, 2024). A nova política de padronização curricular pautada na BNCC demonstrava forte valorização das tecnologias digitais em detrimento do conhecimento científico, humanístico e filosófico (Krawczyk; Jacomini, 2025).

Neste contexto, o ano de 2023 marcou a intensificação da plataformização da escola pública. O governo do estado de São Paulo anunciou a não adesão ao Programa Nacional do Livro e do Material Didático1 (PNLD) e a implementação de materiais didáticos 100% digitais da própria SEDUC-SP articulados com as avaliações externas (Maldonado; Jacomini, 2025). Embora a justiça de São Paulo tenha determinado que o PNLD deveria integrar os materiais da rede e que os materiais da própria SEDUC deveriam ser impressos, a secretaria permaneceu com os materiais digitais obrigatórios (REPU, 2023; Maldonado; Jacomini, 2025). A implementação dos slides foi um passo fundamental na digitalização da aprendizagem e na concretização da plataformização. Além disso, o material digital sofreu – e permanece sofrendo – uma série de denúncias sobre os erros conceituais (aplicação incorreta de teorias em diferentes áreas do conhecimento) e problemas metodológicos (linguagem e sequência didática inadequadas, comandos ambíguos, excesso de atividades e conteúdos) (REPU, 2023). No mesmo ano, O Conselho Estadual de Educação aprovou os pareceres nº 404, nº 405 e nº 423 sobre os convênios de contratação de plataformas privadas para a aprendizagem de matemática, leitura e programação, colocando as tecnologias digitais como promessa milagrosa para solucionar os problemas da escola pública, responsabilizando os professores pela evasão escolar e pelo baixo desempenho nas avaliações de larga escala (São Paulo, 2023a; São Paulo, 2023b; São Paulo, 2023c; Silva; Zan, 2025).

Desde a implementação das plataformas digitais nas escolas não houve transparência por parte da SEDUC-SP e as informações são limitadas e desorganizadas no seu portal (GEPUD; REPU, 2025). Para acessar os materiais digitais e conhecer as plataformas digitais que são utilizadas pela rede é necessário possuir acesso institucional como docente, gestor, supervisor, dirigente, etc. O “Painel Escola Total” é a plataforma que centraliza os painéis das métricas atingidas em cada plataforma, por meio dele é possível ter um panorama geral da plataformização.


Figura 1: Painel Escola Total perfil “professor”

Figure 1: Painel Escola Total perfil "professor"

Fonte: Painel Escola Total no início do 3º bimestre, 2026.

O excessivo número de plataformas digitais tem gerado a exaustão e a sobrecarga de estudantes e professores(as). Sem transparência, a SEDUC-SP apresenta as plataformas como material de apoio ao trabalho pedagógico, no entanto, cada uma das plataformas alimentam o Business Inteligence BI – Painel Escola Total com quantidade de acesso, acertos nas atividades e tempo de uso a partir de métricas que devem ser alcançadas semanalmente sob o risco de penalização de professores(as) e gestores(as) (GEPUD; REPU, 2025).

Figura 2: Painel Super BI com o peso de cada plataforma na nota

Figura 2: Painel Super BI com o peso de cada plataforma na nota

Fonte: Documento Orientador “Entenda o Super BI”, SEDUC, 2025.

A conversão das atividades em métricas e a homogeneização da aprendizagem por meio das plataformas digitais usurpam a autonomia do(a) professor(a) de organizar e preparar a aula de acordo com as necessidades concretas dos(as) alunos(as) observadas nas relações do cotidiano e na consideração da unidade cognição-afeto no processo de ensino-aprendizagem (Tacca; Branco, 2008). A padronização desse processo viola a possibilidade de compreender os estudantes como sujeitos concretos em sua singularidade e contribui para a reprodução de organizações sociais excludentes (Tacca; Branco, 2008).

Ademais, é importante considerar que as plataformas digitais em seu modelo tecnológico produzem insegurança sobre a privacidade dos dados pessoais e comportamentais dos sujeitos que as utilizam. Nesse sentido, é relevante considerar que como plataforma, compreendemos infraestruturas digitais que reúnem diferentes grupos, algumas vezes com interesses distintos, para realizar diversas atividades que, por sua vez, realizam a coleta sistemática de dados para o processamento algorítmico e a monetização dessa dinâmica (Poell; Nieborg; Van Dijck, 2020). Plataformização, portanto, trata-se do contexto em que estamos inseridos de intensa inserção desses instrumentos em atividades do cotidiano mediando as interações que se estabelecem em diversas relações sociais (Poell; Nieborg; Van Dijck, 2020).Este movimento provoca a remodelação das interações e dos próprios comportamentos dentro dessas infraestruturas, mecanismo que a autora Zuboff (2021) tem conceituado como capitalismo de vigilância, cuja matéria-prima principal é a própria experiência humana em diferentes situações e dinâmicas sociais.

Diante disso, com a proposta de relacionar as próprias pesquisas com produções artísticas na disciplina de História e Memória no Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais, iniciei a busca entre livros, músicas, filmes e outras expressões que aprecio, sobre algo que se relacionasse e representasse essa dominação da plataformização sobre as relações sociais no interior da escola.

Imediatamente, recordei-me de uma obra em exposição no Instituto Juarez Machado localizado na cidade de Joinville. A obra em questão, cujo título não encontrei disponível na internet, retrata um homem sentado diante de uma televisão e o seu rosto encontra-se ofuscado pela luz emitida pela tela. Este apagamento do sujeito, de um dos elementos que o define em sua singularidade assemelha-se ao processo de homogeneização das relações de ensino-aprendizagem que se estabelecem no contexto relatado. Não há espaço para o diferente e para a construção do conhecimento coletivo por meio do diálogo e do pensamento reflexivo. Ademais, o apagamento da singularidade e o domínio que a tela exerce sobre o sujeito na obra representa de modo simbólico o impacto da plataformização da escola na subjetividade dos estudantes.

Figura 3: Obra de Juarez Machado “A televisão”

Obra de Juarez Machado "A televisão"

Fonte: Catálogo das artes, 2026.

Num segundo momento parei para ouvir o disco Gilberto Gil de 1969, especialmente a música “Cérebro Eletrônico”. Na música, Gil (1969) nos coloca diante do otimismo ingênuo em relação à tecnologia: “O cérebro eletrônico faz quase tudo”, mas logo adiante, a mesma canção ressalta os seus limites diante das características humanas que definem a nossa existência como um processo particular na natureza, como o movimento físico, mental e emocional do corpo realizados de acordo com a autonomia e a consciência, elementos que se destacam nos versos: “Só eu posso chorar quando estou triste; Só eu posso pensar se Deus existe”.

Ademais, quando Gil (1969) diz que o “cérebro eletrônico” é quem manda, torna-se possível uma alusão ao processo algorítmico das plataformas que se aproveitam de qualquer experiência humana possível para controlar e prever nossas próximas ações nos mesmos “ecossistemas” lucrativos. Todavia, ainda que a máquina imediatamente assuma este controle, a marca da autonomia e da vontade ainda está no sujeito e não no objeto, por essa razão ele diz: “Eu penso e posso” e “eu posso decidir se vivo ou morro”. Nesse sentido, a música contribui para identificar um elemento importante: embora as plataformas tenham mecanismos que exercem controle sobre o comportamento humano, a máquina não tem um fim em si mesma, ela é um instrumento de realização de vontades humanas inseridas num contexto social e político. E ainda assim, neste contexto, é possível afirmarmos nossa autonomia e contestarmos tais dinâmicas que favorecem a criação de instrumentos de manutenção das relações de dominação.

Os limites do cérebro eletrônico vão sendo demonstrados nestes versos que revelam que a vontade, a escolha e a consciência são partes do humano e não da máquina, e, por isso, o seu controle pode ser superado. Além disso, o limite também se expressa na insistência da marca dialética entre natureza e cultura na constituição humana: andar, falar, ouvir, pensar e sentir em diversos versos ao longo da canção surgem como contraponto ao cérebro eletrônico. Na música, a morte aparece como a maior marca da relação dialética entre natureza e cultura, no que nos constitui como humanos, sendo o peso da finitude que passa a compor o desenvolvimento subjetivo do sujeito: “Que a morte é nosso impulso primitivo e sei que cérebro eletrônico nenhum me dá socorro no meu caminho inevitável para a morte” (Gil, 1969). E ainda que a morte seja a marca da natureza, as relações sociais produzem significados culturais sobre este processo, por isso, o cérebro eletrônico não pode dar socorro, pois este é um processo humano natural, inevitável com símbolos e significados produzidos na cultura.

A máquina pode processar de forma acelerada uma quantidade infinita de informações, mas o pensamento sensível, crítico e com profundidade de sentido são marcas humanas dependentes da finitude, do tempo, da processualidade e maturação da memória e do pensamento humano (Gjergji; Denunzio, 2023). O cérebro eletrônico não “dá socorro”, pois tem limitações perante as complexidades e nuances da vida humana, sobretudo ao que diz respeito aos aspectos da subjetividade. Isso porque a maneira que é concebido e programado serve para exploração de dados que tendo como finalidade o controle, enfraquece processos criativos humanos, simplifica a linguagem e desconhece a profundidade do comportamento e pensamento atravessados por contradições, nuances e emoções (Gjergji; Denunzio, 2023; Zuboff, 2021).

Pensar criticamente a plataformização da escola pública e a inserção indiscriminada de tecnologias digitais com mecanismos algorítmicos e coleta de dados é parte da luta por uma educação que visa a superação das relações de dominação e se identifica com os interesses dos dominados. Identificar a contradição que se estabelece entre autonomia e controle na própria relação do sujeito com estes objetos, é fundamental, visto que o pensamento livre e crítico não é natural, mas formado historicamente nas relações sociais, sobretudo em condições adequadas de ensino (Vigostki, 2001). As limitações das plataformas digitais de aprendizagem não contribuem para o processo formativo da subjetividade do qual a escola faz parte na sociedade moderna, isso significa que o seu uso indiscriminado na sala de aula compromete o papel que a educação deveria ter com a formação de subjetividades conscientes de si e do mundo, cujo desenvolvimento ocorre quando o sujeito está em atividade movida por processos internos significativos, coletivos e cooperativos (Vigotskii, 2010).

REFERÊNCIAS

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Mestranda: Gabriela Berbel dos Santos

Orientadora: Prof.ª Dr.ª Sueli Guadelupe de Lima Mendonça

PPGCS/Unesp-Marília. Linha de pesquisa: Pensamento social, educação e políticas públicas